sexta-feira, 26 de março de 2010

Micaela Soares, quando tristonha

Fui. Fui e não voltei mais. A casa ao longe transmitia-me mais frio que o próprio mar. As ondas gastas, de tanto bater nas rochas, choravam espuma. Eu? Eu ria-me. Ria-me de tanto querer chorar. Não fui só eu a partir; tu também foste. Nunca mais vi o teu rosto descolorado pelo vento que, guardava um sorriso luminoso. Nunca mais senti no peito a falta de ar que me sossegava; o teu corpo.
Foste. Foste e não mais voltaste.

Ui finalmente, passado meia hora

Um poema lindíssimo,
Uma jura que o curto
Espaço
ainda é tardio.
Não vás para tão longe.
Sou eu quem se senta
À tua sombra.

Continuamos a ver mais, olhamos

Não entendo.

Eu também não.
Melhor desistir porque
Entender,
Amaina a paixão.

O desconcerto do mundo,
Também não
Entendo.

Por um lado.
Por esse, nesse
Também nada vejo

Meu amor,
A minha visão pouco baila.
E por muito menos
Vi muito mais.

terça-feira, 23 de março de 2010

for the three of you

Depois do teu nome, depois da massa - a meu ver, espalhada no chão plano - não me resta nada a dizer senão que vivo com poetizas.
Sou uma mulher pequena, rodeada de versos escritos à pressa;
frases bonitas, como lhes gosto de chamar...
ou pedaços destas almas.

A chaga do sorriso


Ouvi dizer que não, que não tinhas nada com a outra pessoa.
Ouvi-me dizer que não tinha nada com isso.
Ouvi-te dizer que era mentira.
Mas sabes, estou cansada de não te ter nem me dar por inteiro. Farta de dizer que não tenho nada por contar. Imaginar-te como um anotador ocorrente de tudo. Mentira, mas não me peças a verdade, porque não vais achar nada bem que desconfie.

Ouvi dizer que não querias filmes.
Ouvi-me dizer que não os faria.
Ouvi-te dizer que não querias vozes excêntricas a falar do que não era real.
Assim sendo sou criança que não entende.


Não preciso que admitas,mas não me ofereças tons na tua voz que me parecem tão pouco credíveis. Posso ser infiel ao mundo, mas não acredito que ainda te vês tão à parte de mim.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Já, incompleto

Já viste o nó na flor,
Nas pétalas dos versos,
Quando o escuro do céu não
Chega.

Já viste o raio que se atrasa
E atrasa o meio dia.



to: micas

XVIII

"a noite como um prego a noite louca
a noite com árvores na boca"



Mário Cesariny

a homosexoalma

"A
ALMA
SEXO
DO
HOMEM"
Mário Cesariny

quarta-feira, 17 de março de 2010

3

Brinco caída, sobre a chuva e o mar. - Tatiana Rocha
A cair vive-se. - Micaela Soares
Desisto sofregamente, porque quero fragilizar. - Putas do Diabo

Once upon a time

Não estas contente porque és fábio,
Não, Duarte.

Jamais o voltarás a ser.

Por uma porta estática com um corpo em movimento

Vocês que possuem a simplicidade de não ter, em troca de não serem de alguém, não admitem o desejo próprio e pelo exterior.
O sexo. A palavra impregnada pela textura áspera da censura, não é? Há palavras que vos são proibidas, assim como o direito ao movimento do corpo. Gostava de vos fazer passar por uma porta estática para vos fazer ver que os fios que prendem as vossas mãos ao chão, não são de ferro mas de lã.

assim...como tu fazes

Preciso de alguma coisa que te anule o cheiro. Não te quero saber por reacções animais de reconhecimento. Já à muito que não me deito no chão esquentado por lágrimas.
Preciso de alguma coisa que te molde o corpo descomposto. Ainda me lembro de olhar o espelho e ver-te, outro.
Preciso de alguma coisa que te possua a voz, que te lamba as palavras e te humidifique o som.
Preciso de alguma coisa que te vigie a alma, porque a expões em quadros escondidos da parede.
Preciso de uma coisa que se assemelhe na carne, assim como tu fazes.

Opiniões opostas

De dentro da carne surge a essência.
De dentro de mim, a dúvida
De ti, o degustar das palavras.


Palavras
Por vezes gosto delas apenas pelo efeito físico que imprimem no papel, não pela luva de sentimentos que vestimos nelas, nunca pelo aconchego que nos dão.
Por vezes gostas delas por te parecerem flores ou cubos de gelo, por te lembrarem que és mais um homem, pelo aperto no coração que tanto te faz falta.
Para ti são por inteiro,
Para mim são fragmentos.

Simples lama

Gostava. De sentir o teu corpo numa frequência diferente.Sair do ritmo alucinante das radiações e desmanchar-me em sorrisos amenos, apenas preceptíveis aos teus olhos.
Aos teus olhos morenos, manchados de odores característicos de um sinal stop. Sim, vejo na caneta vermelha a distância que emagreces de dia para dia. A dificuldade de uma posição que acolhemos como nossa.
Relato-te. Acerca dos pontos fálicos que tanto me dizem. Que me falam de vez em vez, mas pouco me transmitem senão o desejo esbatido no ardor do estômago.

terça-feira, 16 de março de 2010

Uma mão no ombro

A carne nua desperta nos sensações que o mundo lá fora não cheira.
como a lua brilhante no rio,
do céu,
para a montanha.

Não choca o que é demasiado previsível,
demasiado artístico.

Al Berto

A beleza de um movimento despertador, um cheiro atracado no porto por uma brisa nula a centímetros do chão.
Os cães ladram por compromissos desnecessários, por paixões platónicas em palavras pintadas a tons de marom.
No momento final, eu fico, enquanto a guarda nem desconfia do encontro. De repente uma sala grande passa a ser uma cave clariada pela luz que entra do chão e do tecto.

domingo, 14 de março de 2010

Family Portrait

  1. Temos grau parentesco; devemos ser uma família.
  2. Há dinheiro, muito bem, senão põem-te daqui para fora que a casa é minha.
  3. Não se fala de nada, trata-se tudo na sombra.
  4. Vamos salvar o que é nosso. "Mas ela é tua filha, vai perder tudo!" Não importa, o que é meu já esta safo!
  5. Não faz mal ter dívidas.
  6. O que importa é: muitos carros, muitas mulheres, muito álcool, muitas prendas para os meninos e as esposas, para ficarem contentes.
  7. Se alguém tiver algum problema que o resolva, por aqui ninguém o vai ajudar.
  8. Tiveste sorte, foste ajudado. Agora paga.
  9. São todos muito lindos se forem todos médicos.
  10. Que morram os mais velhos para ver se fica alguma coisa para nós.


Esta são as regras de jogo da minha família.
Desde pequena que nunca gostei de jogar.

*Este jogo não esta a venda na toys'r'us

Não sei o vosso nome

Não gosto de vocês.
Devia?
Talvez.
Diz num papel qualquer que sou da vossa família.
Não vos conheço.
Não me interesso por vocês.
Não quero o vosso dinheiro.
Não quero apelidos para ter posição na família.
Devia?
Talvez.
Mas quem me garante que não vou receber mais uma surpresa desagradável?


Sou vos tudo, mas só legalmente.

Segredos familiares

Cada vez mostramos mais, como o natal, não fazia sentido. Em troca de prendas para os três meninos, surge uma dívida infindável num nome que é tão próximo que me assusta.

Cada vez mostramos mais, que a vida levada, cheia de putas e álcool, não era a melhor. Que a contradição do vício ainda não foi embora.

Vocês que tanto eram, tanto estavam e tão pouco esperavam. Tão perfeita família, cheia de tolerância secreta e segredos tolerantes. Como era bonito estar à volta do presépio, cheios de prendas caras e tão pouco dinheiro para gastar. Agora acabou... Não há mais prendas, não há mais carros, não há mais putas, não há mais vinho...

Mas há, meu avô, o nome de uma filha manchado num papel oficial com zeros a mais.

sábado, 13 de março de 2010

Gatekeeper

O que és tu senão uma paragem no caminho engarrafado do autocarro? E tanta diferença me fazes, quando te miro parado, à espera de me dares permissão sem cobrares portagem. És um vulto no meio da noite silenciada por assaltos e violações fora do contexto animal. Em prol da paz, o teu corpo não maneja uma única acção para incutir ou travar. Existes mas não é no nosso dia-a-dia apetrechado de imaginações macabras do que vês. És em casa pai? És no quarto marido? Tens a chave do portão ou só o abres quando destrancado?

Também beijas a mulher do outro no seguimento suave de respirações controladas, para não fazerem barulho?

sexta-feira, 5 de março de 2010

asterisco

Espero que te sintas confortável numa paisagem que fui eu quem a pintou.

Já esperava que achasses pouco, mas não te tenho mais a nada a dizer.
enjoy

Demasiado tardio para quem queria estar só

Não tenho orgulho na parte de fora do que sou. Por vezes julgo-me um corpo inválido fora do contexto ritmado. Em nada me destaco, para nada sou ou resisto. Não, não desejo ser modelo - já sigo os meus - desejo antes acontecer. Correr para me cansar, ver para sentir, ouvir para ser. Prefiro verbalizar -te para que te sentes comigo numa mesa de café à espera que nos sirvam. Ser tão simples como uma paixão que possa acontecer nas águas furtadas de um hotel nos aliados. Não procuro resistir mais, porém não esperes ver-me ceder.

Demasiado bonito para quem queria estar só





Na penumbra da noite, junto ao rio, por onde poucos passeiam. Vivo eu, imaginando o desgosto de Camões ao ler o que escrevo! Vivo eu pairando no erro a que gosto de chamar crescer. Levo-me a mim própria primando sempre por não ter mote, por não saber para onde dirigem as palavras, o texto.

Somos sempre nós o passageiro

Precisava de te abraçar. De sentir que amava e não tinha a carga nos ombros de ser amada. De ser eu nos braços de um alguém, ainda que sem direito.
Queria, queria muito ter uma alma sem alma junto a mim. Sem pretextos ilustrativos, sem danças que me fizessem chorar, sem teatro... Queria um passageiro que me olhasse no comboio e que deitasse os pés na paragem seguinte.
Vendo pelo lado de fora, no meu caminho o terreno é lamacento, há pouca luz, muitas pegadas. Há forasteiros e riachos que tão depressa nascem como são engolidos pela terra. Não fazem muito sentido e pouca vida habita na minha. Peço uma alma que não me ame... que apenas se deixe ser amada, para que eu possa ver correrias numa pradaria da cor de tantos cabelos.


Prolongar os meus silêncios enquanto posso, até se fazerem sentir em peles inicialmente sem sensibilidade.
Pentear os meus cabelos até que a ultima madeixa caia.
Apresentar-me indiferente até perceberem que sou eu por trás da cortina.
Chorar ainda que a dor não seja minha.
Negar por mais que a memória não me deixe adormecer.

cair arrepender chorar sofrer sorrir viver ser
amada.