terça-feira, 12 de janeiro de 2010

É na busca constante dos outros por sentimentos humanos, que eu saceio-o a minha sede.

É verdade, não tenho um único sentimento humano com bases bem fundamentadas. Procurem amor-próprio, afecto por familiares...pouco existe cá dentro.Mas orgulho-me de ser capaz de identificar amor quando me oferecem aos olhos. E é tão bonito, tão esvoaçante, que nem se quisesse o conseguia amordaçar ao meu próprio peito.

Eu perguntei-lhe se era amor? Respondeu-me: "Nem sei bem o que isso é."

Encontrei. Encontrei mais uma vez, o mais glorioso rei, que nos toma a todos como amantes: o amor. Eu disse que o reconhecia. Mesmo escrito, não me passa ao lado uma única palpitação, uma única lágrima, um único sorriso.. Afinal é destas coisas que o tal amor vive, não é?
Eu sabia, os olhinhos cristalizados pelo tal açúcar que o amor trás, o sorriso estampado na cara quando um nome é entoado, a tristeza alheia que passa por nós e resolve ficar...É bom sentir todas as reacções desejadas e as desagradáveis que este marginal nos dá.
Sabes, é bom arriscar...mesmo quando não se tem certezas.
Admito, não arrisco. Não tenho ponta de amor por onde pegar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Não sei se tu entendes como passa o tempo, não sei se tu próprio és o tempo. Se eu passo contigo ou por ti. Se vivo contigo ou se não aguento um segundo do tique-taque do relógio de parede, sem ti. Serás pradaria verdejante, horizonte das marés e lagos, serás tão irreal como um som visível? Não me passa, nem por perto, a ideia de desvendar o que és. Corro o risco de ser do mundo, uma imagem distorcida, de ser mais uma das poucas que se atreveram a viver sem ti.

E sobre os meus devaneios, vou rompendo sem razão, os medos de me tornar a desprezada do mundo. Devo cair? Tentar focar em mim a parte pesada e negada de cada um deles?

Desta vez a espera foi diferente

Estava toda a gente a olhar para mim.
Não porque de algum modo a beleza fosse atractiva, mas porque estava sozinha no banco.

Se existisses:

Eu quero embebedar-me.
Eu quero embebedar-me e tirar a roupa.
Quero dançar contigo e correr o risco de me escreveres, de me leres, de me teres.
Não o sexo, nem mãos ardentes como tochas.
Eu quero embebedar-me contigo e despir-te dos traumas de infância e dos meus embrenhados de poesia.

O tempo do livro

Não vale a pena continuar a ler se o presente do leitor é agradável e estonteante. Como uma carta de alforria apetecivelmente grátis. Porquê chegar ao fim lacriminoso com findados tão queridos? Assim como preservar a própria vida, se torna possível não querer ver morta a personagem Majestade ou o Mendigo. Diga-se então que ao critério do deleitado, tudo acontece ou, se fecha o livro. E que razão mais filosófica existirá, senão poder guardar viva, só para nós, uma personagem já morta para o mundo? Podemos sim, parar a impressão acabada e reescrever a estória. E o que para mim é passado, para vós presente. O que para mim futuro, a eles passado. Para mim presente, a outros futuro.

Assistir aos demais

E que bela cidade a minha, que depois das festividades, os homens se juntam entre os olhares ao despique das senhoras. Na lógica ancestral das nossas vidas, ainda vale a pena igualar o sombrio desafio dos conjuntos humanos. Ser diferente ou igual, impávido e sereno ou guiar-se pelo escuro em cada canto. Todos espreitam pelos lugares-janelas, onde o destino se vai desfinhando pelos caixilhos. Juntamente à minha pessoa, cada um, um a um, se vão embora sem querer.
Nem a noite se enganava.




Estampei-te a alma, não foi tatiana rocha?
O que nos resta senão as palavras? Senão o poder pegar na caneta e escrever numa base qualquer, as palavras que vierem. Ter a liberdade de escrever sobre os meus rapazes, para os meus homens, das minhas irmãs. É bom então ter como companheiro o caderno lineado, com palavras jovenis e loucuras de mulher. Um diário de bordo infindável, mais uma estória na vida planetar.
Mais livre que um louco letrado, não há.

por outras palavras

Tomaste banho meu amor. Tomaste banho e disseste-me. Tomaste banho e disseste-me porque te agrada que eu saiba. Eu também tomei banho meu amor, mas tu ainda jazias dormindo na tua cama, não na minha. Para tua desgraça, a minha imaginação não foi mais além que o chuveiro e a tua sombra nutrida pelo sol, ambos pintados na cortina branca.
Ainda que húmida, é só uma cortina branca.

(mente) de manhã

Ando a cirandar por tudo o que é mais visível. Lá dentro talvez encontre uma caverna cheia de esqueletos, ou um mar inundado de praias. Depois apagarei as minhas pegadas para que ninguém me encontre. Desaparecida na imensidão da alma humana, é a melhor forma de vida. Mais recatada, mais calma. Que estranha forma esta que me faz crescer, fazer chorar flores ou fazer-me chocar com o mundo do lado de fora da janela. Semeia em mim mais um pouco de egoísmo, um pouco mais da resina que mais tarde fará de mim ambar. É por isto que me refugiu nas pálidas almas, onde o desassossego é rei e a escrita é rainha. E que mártires são eles, quando em tempos de fome, me vêm chegar e me abrem os braços.