domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Temos padre"

Deitei-me consciencializada de que a 5 centímetros de tijolo, jazia estendido o mais impuro dos homens. Ontem apreciei ao longe cada movimento seu e, como eram parecidos com os da noite. A mesma sensação de desejo, escondida naquele olhar ingénuo e cheio de fé no Senhor. A fé que antes tinha no celibato angelical fora morta pela sua boca no meu corpo. Ele transforma-se; perde o nome e a vocação. Nenhum de nós se esquece por um segundo que, a todos, isto parece errado. Pelo menos a mim, é isso que me faz voltar. A ele é a descredibilidade que impõem aos homens, porém tão bem me ama. Não acredita na salvação da pele ou da alma. Só consegue sentir mas, torna-se racional nas explicações bíblicas.
Encaminhei-o para os meus desvios, pois era o único que compreendia os meus silêncios como se estes fossem falados. Também entendia que só estava ali para lhe dar o meu corpo, como que uma oferenda a Deus.
Quando a cruz caiu da parede do seu quarto, ele foi embora.
Normalmente são eles a desflorar.
Fui eu quem desflorou este homem.



Mantive sempre a cruz ao peito.
Nada significou,
Mas sei como gostava de a olhar - ela
Brincava com o símbolo,
Como se o Senhor
A olhasse pelos meus olhos.

Um céu por entre um
Inferno

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